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Nacional

Zilda falava sobre o irmão dom Paulo quando caiu, diz religioso
17/01/2010 - 08h10   

Folha Online

Ultima pessoa a ver Zilda Arns com vida, o padre haitiano William Smarth conversava com a médica brasileira quando ocorreu o terremoto, na tarde de terça (12). Quatro dias depois, o religioso de 76 anos ainda esperava, diante dos escombros da escola de teologia que dirigia, a ajuda brasileira para recolher 14 alunos, já mortos.

"Eu me dei conta do terremoto quando algo saiu do teto e caiu aqui [mostra o ferimento na cabeça]", lembra Smarth, com olhos cheios de lágrimas. "E ela, quando viu isso, saiu e se foi para a sacada, e o piso caiu."

Localizado na zona de Turgeau, o Cifor (Centro Interinstituto de Formação Religiosa) ficou parcialmente destruído. Ironicamente, a parte mais preservada era onde estava Zilda, que caiu do segundo andar.

A maioria das mortes ocorreu no prédio anexo, cujos andares afundaram um sobre o outro. Até no dia seguinte, quarta, contam dois parentes de vítimas, era possível ouvir as vozes de estudantes presos dentro de um carro --eles estavam deixando o prédio logo após a palestra de Zilda.

A médica havia acabado de falar sobre a Pastoral da Criança e estava conversando com Smarth sobre seu irmão, o arcebispo emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns.

Smarth já havia conhecido dom Paulo nos anos 1980 ("era o meu candidato a papa"), mas era a primeira vez que estava com Zilda. Descreveu-a como uma pessoa engajada e cativante. "Era apaixonada, ela não queria terminar a palestra, falou uma hora e meia. Via-se que tinha tantas coisas a dizer, que sua missão era salvar vidas", conta, novamente interrompendo a fala para não chorar.

Mesmo caminhando com dificuldades e com o ferimento na cabeça, Smarth tem ido todos os dias à escola --a sua casa também foi destruída, e ele dorme no pátio de um seminário, igualmente arrasado.

O religioso diz que, depois de recuperar o corpo de Zilda, a embaixatriz Roseana Kipman prometeu voltar pessoalmente ao local com militares brasileiros para buscar corpos e sobreviventes. Até ontem à tarde, isso não havia ocorrido.

"Se você pode puder falar com a embaixatriz, porque a gente que vive aqui não pode mais ficar com esse cheiro", pediu Smarth. "Queremos também fazer os funerais para eles, para as suas famílias."

Professor de teologia, educado no Vaticano, Smarth disse sobre o papel de Deus na tragédia: "Para mim, é um fenômeno físico da natureza, coisas que não podem mudar. O problema, para nós, é a necessidade de continuar trabalhando com essa gente já pobre. Dissemos isto aos protestantes: que digam se isso é um castigo do Senhor. Talvez os que nos salvamos tenhamos algo especial a fazer para que, no futuro, menos gente morra".

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